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OBSERVATÓRIO DA CULTURA: laboratório multidisciplinar de estudos e pesquisa - MACUNAÍMA OU BRASIL EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE NACIONAL


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MACUNAÍMA OU BRASIL EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE NACIONAL

E como resposta a  Retrato do Brasil de Paulo Prado nasce pela luneta paulicéia de Mário de Andrade, em 1928,  Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” um romance permeado pelas mitologias indígenas e pelo folclore nacional, bem como pela linguagem usual do brasileiro. Numa busca simbólica do que seria o caráter nacional, o autor transita entre o sagrado das tradições indígenas, os mitos sertanejos e caboclos e o cotidiano das cidades sulistas.

Introdução

Em meio a tantas etnias numa só terra, como identificar o brasileiro como brasileiro! Negros, índios e brancos, suas culturas, valores e crenças enlaçam-se entre milhões de pessoas que no fundo, ou não tão fundo assim apresentam caracteres de cada região e indivíduo as suas maneiras.

Através da pesquisa bibliográfica nos propomos  a um ensaio sobre alguns aspectos peculiares à nacionalidade brasileira. Baseado no romance mitológico de Mário de Andrade, Macunaíma, se ressaltará através de uma leitura sociológica e psicanalítica o falso heroísmo da personagem principal dessa trama, um certo nariz empinado brasileiro, bem como a constante busca por um herói nacional.

Sabe-se que a imagem do brasileiro é vinculada à preguiça. Ao mesmo tempo, não temos o que dar de comer aos miseráveis, desfilamos em carros importados e blindados com um largo sorriso amarelo no rosto e envergonhados do que mais nos orgulharia: nosso povo!

E por conta de um sentimento de abandono, por tanta miséria e na tentativa de fazer cair do céu um Deus salvador da pátria. Elegemos de vez em quando um novo sucessor do criador para milagrosamente nos servir de herói e de pai.

Se não se pode falar um único Brasil, mas de Brasis, o que haverá de comum nessa pluralidade?

Mesmo múltiplas e diversificadas, o que há de identificador nas culturas políticas e econômicas das regiões norte e centro-oeste?

O que faz um cearense e um paranaense se sentirem brasileiros?

1 Um herói às avessas

E como resposta a  Retrato do Brasil de Paulo Prado nasce pela luneta paulicéia de Mário de Andrade, em 1928,  Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” um romance permeado pelas mitologias indígenas e pelo folclore nacional, bem como pela linguagem usual do brasileiro. Numa busca simbólica do que seria o caráter nacional, o autor transita entre o sagrado das tradições indígenas, os mitos sertanejos e caboclos e o cotidiano das cidades sulistas.

A personagem é inserida em um tempo e espaço geográfico plural, os quais ilustram uma visita aos povos fantásticos ou reais da história do país. Macunaíma encontra personagens paulistanos, sergipanos, mato-grossenses e baianos.

Quando desponta um negro saído do ventre de uma velha índia, se esperaria um guerreiro bravo, grandioso, próspero, estereótipo de um líder, de um valente e digno herói. Ao contrário de todas essas virtudes, nasce Macunaíma, berrando de fome à espera de colo e soluções e que noite ou dia está sempre com preguiça de pensar e de caçar seu alimento. Passa seus dias a descansar e gritar por sua mãe.

Mesmo quando por mágica transforma-se em outra persona (um branco esguio) carrega consigo sua personalidade infantil e desemplicada. Agora, num cenário urbano de tecnologias e de tempo avançado, tempo corrido, Macunaíma se apresenta tal qual o era na comunidade de origem. Se era para se esperar um homem grandioso para simbolizar um país audaz de ordem e de progresso, se tem uma outra realidade ante os olhos.

A personagem de Mário de Andrade não nos poupa de apontar aquilo o que também nos caracteriza como brasileiro. Apesar de nascer no berço paulista a obra buscou uma visita as demais regiões e seus costumes. Mostrou a saga de um mito que depois de viver passou ao céu como uma estrela.

2 Um povo que engoliu a majestade e acha que tem o rei na barriga

As Américas simbolizaram às antigas civilizações além de terras desconhecidas, novas possibilidades de existência, apesar de as navegações dos séculos XIV, XV  serem justificadas principalmente pelo viés econômico. Havia, por trás de tudo, ou melhor, impulsionando tudo, um desejo maior em romper uma tradição de existir, ou mesmo de se dizer de uma outra maneira. Calligaris (em Sousa 1999, p.11), em seu artigo Psicanálise e o sujeito colonial,  responsabiliza o nascer da modernidade ao descobrimento das Américas.

Essa busca representaria o desejo por uma nova inscrição, os nossos “descobridores” já vinham inseridos numa modernidade em que “o luxo não é supérfluo, mas necessário. O luxo é pai e mãe da modernidade. Pois os bens de luxo são a própria matéria simbólica de nossos tempos, ou seja, exatamente o que decide da organização social” como bem nos coloca Calligaris (1999).

Ao desembarcarem numa terra brasilis, de índios e selvagens iniciam-se num processo de exploração, de mão-de-obra e de almas e de território simbólico-cultural. Séculos mais tarde, com a importação de um outro povo, o negro africano, haveria assim o encontro das três raças que dariam origem ao brasileiro. Uma mestiçagem lenta de raças iguais em capacidade mental, divergentes quanto ao seu processo civilizatório, este visto pela psicanálise freudiana como divergente de desenvolvimento, como nos aponta Birman em Mal-estar na atualidade (2001, p. 38):

A dita civilização do progresso material, fundada na ciência e na técnica, não pode realizar, pois, a suposta felicidade ampla, geral e irrestrita, conforme prometera em suas origens heróicas. (...) Aquilo que Freud denomina civilização corresponde na verdade ao processo de modernização do social que se realizou no Ocidente desde então, de maneira que a idéia de mal-estar na civilização deve ser interpretada como uma crítica da modernidade.

 

Somos frutos de uma civilização ibérica, de um índio desalmado e de um negro escravo. Jogado ao pré-conceito, como raça inferior o negro escravizado representa nas palavras de Paulo Prado no seu Retrato do Brasil (1945, p. 139) “a imoralidade, a preguiça, o desprezo da dignidade humana, a incultura, o vício protegido pela lei”. Somos ainda na concepção desse Retrato do Brasil, um povo essencialmente de luxúria – a libertinagem descrita pela visão dos jesuítas; de cobiça que moveu a expansão territorial em busca das lendárias minas inesgotáveis de pedras preciosas. Por mais de dois séculos o explorador viveu no Brasil movido pela ficção de um ideal que mais tarde transformou-se em desilusão, resultando um povo triste pela decepção de não alcançar a tão sonhada riqueza. folcloricamente representado pela personagem Macunaíma.

Desde tempos remotos o brasileiro carrega consigo a idéia de ser um país rico, tropical, há uma ficção em torno de uma possível riqueza e status que o faz empinar o nariz e achar que tem “o rei na barriga”, uma expressão popular que caracteriza a essência de um povo descalço, faminto e protegido por Yemanjá, Nossa Senhora Aparecida, Frei Damião e Padre Cícero.

Quando há de se escolher um representante político buscamos a imagem de um bom homem com atitudes de um grande pai que possa resolver todas as mazelas da nação. E em períodos eleitorais cresce ainda mais a esperança em aparecer alguém em que se possa confiar plenamente e que principalmente, se responsabilize pelo país.

Ao mesmo tempo em que jogamos a responsabilidade ao outro nos isentamos de nossa parcela de culpa e ou felicidade para com os caminhos e resultados alcançados pela nação. O brasileiro tem preguiça de pensar! De agir! Em muitas capitais brasileiras tem-se enfrentado problemas deferidos pelas chuvas em épocas invernosas devido, principalmente, ao lixo urbano e à ocupação de propriedades indevidas, e então a culpa do alagamento, dos desabrigados e do caos é remetida ao pai que não cuidou direito do seu povo!

Considerações Finais

Somos assim... meio preguiçosos porque aos olhos civilizados do Primeiro Mundo não temos gana e pressa de conquistar o mundo. Preguiçosos por desfrutarmos do tempo humano e de nossa natureza. Preguiçosos se possuímos uma tecnologia de ponta nos mais diversos setores dos negócios. Preguiçosos porque deixamos para bem depois o que podemos fazer hoje. Eu não diria preguiça, mas um certo descompromisso com nossos próprios resultados na indústria, na ciência, na sociedade.

Se não elegemos nossa pátria como objeto de desejo e de investimento libidinal, como poderemos preserva-la, impulsiona-la, amá-la? É inerente ao humano o investimento de energia psíquica em tudo o que possa lhe iluminar os olhos, lhe proporcionar crescimento. Sociedade e indivíduo não podem ser pensados separadamente como se tivéssemos analisando uma experiência química ou física com elementos e resultados exatos.

Penso que, se nós desempinássemos o nariz, colocasse o rei para fora da barriga, nos enxergariamos tal como somos: pobres e descompromissados. Com um leque de possibilidades à sobrevivência, no campo econômico e sociopolítico. As idéias existem, de prática ainda há pouco em relação ao nosso número de favelados e de violentados.

Ainda somos um povo à fora, cuidamos do que não temos, desejamos ser o que não somos; mais do que admirar o americano do norte e o europeu, negligenciamos o que nos caracteriza culturalmente: somos de sangue indígena, dançamos no terreiro de candomblé, na roda de vaneirão, onde bebemos o chimarrão de boca em boca; comemos tapioca, charque, açaí e do bode, até as vísceras.

 

Referências Bibliográficas

ANDRADE, M. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. 6São Paulo: Martins, 1970.

BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

LEITE, D. M. O caráter nacional brasileiro – história de uma ideologia. São Paulo: Livraria Pioneira, 1998.

PRADO, P. Retrato do Brasil – ensaio sobre a tristeza brasileira. Rio de Janeiro: F. Briguiet, 1931.

SOUSA, E. Psicanálise e colonização: leituras do sintoma social no Brasil. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999.

Dauana Vale Cavlacante, Psicóloga

13/10/2007

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