Daniel Pinheiro, Dr.
Muitas mulheres se preocupam intensa e completamente com o próprio corpo. O modelo brasileiro ideal teraia 90cm de quadril; 60cm de cintura e 90 com de busto. Mas será que ela seria de fato bonita?
[Fortaleza, Jornal Diário do Nordeste, 8 de maio de 2004.]
Tia Jovem só consumia comida fresca. Nunca tomou café de garrafa térmica. Não acordava muito cedo ou muito tarde. Comia de tudo, desde que coubesse naquele prato de sobremesa que ela ganhou do tio Ranulfo.
Muitas vezes cheguei sem avisar, mas ela só me recebia bem vestida e cheirando a alfazema; de sapato alto, vestido ou saia e as belas pernas ligeiramente a vista.
Os cabelos ficaram brancos. “Tintura, coisa de gente mal nascida”, dizia. Remédios, só os inevitáveis. Água de boa fonte e uma tal de aguardente alemã discretamente guardada. Vinho, uma vez ou outra. Cigarro, só em casa. Eu nunca a vi fumando.
Mas esses olhos que ei de doar jamais esquecerão aquela beleza gorda, fresca e cheirosa. Linda, absolutamente linda! Só perdia a compostura quando se falava do tio Ranulfo, um homem tão vivo que, quando ela morreu viúva aos 96 anos, ainda tinha presentes dele.
Ela guardava também todos os bilhetes, mas fora da nossa curiosidade. Talvez fossem picantes demais. Pensando nessa mulher tão amada, chego a sentir inveja.
Havia algo de misterioso naquela boca discreta ao falar, mas de uma beleza obscena. Ela era discreta demais. As mulheres modernas falam muito e têm ideais estéticos bem definidos: 90 de quadris; 60 de cintura e 90 de busto; duas horas de ginástica; 15 dias por ano num spa; cartão de crédito sem limite. Mas elas só recebem presentes antes. Depois, nunca.
Então, como uma viúva gordinha aos 70, 80 e 90 anos podia ser tão sensual e feliz antes do Prozac?
Talvez hoje seja um bom dia para rever o conceito de felicidade feminina. Chega de cuidar do corpo para impressionar outra mulher.
É impossível ser feliz. O corpo é fonte de frustrações. Os desejos não conhecem limites. A juventude é curta e a velhice é longa. E se amor não existir, não há saída.
(Daniel R. de C. Pinheiro. Mensagem para observatoriodecultura@gmail.com).
Daniel Rodriguez de Carvalho Pinheiro
23/03/2007