Luziane M. Ribeiro Neff, luneff@oi.com.br
1. Testes das teorias
O objetivo desse resumo é apresentar as principais idéias de Karl Popper sobre os componentes estruturais de uma teoria, explanada em sua obra A Lógica da Investigação Científica (1980). Partindo do pensamento de Popper e de sua crítica ao tradicional indutivismo para formular sua proposta para uma teoria do método científico, sustenta-se o estabelecimento de uma clara distinção entre ciência e falsa ciência. Com o argumento que o caráter científico de uma teoria está na possibilidade de validá-la, refutá-la e testá-la. Deve-se aceitar, ainda, que todo conhecimento é provisório no sentido em que é uma verdade momentaneamente aceita até que seja operado novo teste, nova tentativa de refutação. Popper defende que a experiência e as observações do mundo real podem e devem encontrar provas da falsidade de uma determinada teoria.
2. Componentes estruturais de uma teoria
No Capítulo III, Popper se propõe a apresentar alguns dos componentes estruturais de uma teoria da experiência, afastando o problema da lógica indutiva do problema da casualidade, ficando assim questionado o papel da observação ou da experiência perceptual, como fontes de evidência imediata. O princípio da casualidade fundamenta-se em deduzir um enunciado que o descreva, empregando hipóteses com caráter de leis naturais, enunciados universais, ajustadas com enunciados singulares, que se aplicam a um evento específico. De acordo com Popper, adotando tal princípio, todo e qualquer evento pode ser explicado e dedutivamente previsto. Entretanto, Popper enfatiza que exclui o princípio da casualidade da esfera da ciência, considerando-o como metafísico. Os enunciados singulares e universais são de particular valor para os cientistas. Os primeiro são enunciados de observações, tais como, este cisne é branco. Na teoria da lógica chamamos a estes enunciados existenciais singulares, uma vez que afirmam a existência de uma coisa em particular. Os segundos, que na lógica chamamos de enunciados universais, para os cientistas categorizam todas as instâncias de alguma coisa, por exemplo “todos os cisnes são brancos" (p.3). É explanado que um sistema teórico deve ter um conjunto de enunciados que satisfaça quatro requisitos fundamentais, que constitui em um sistema de axiomas estar livre de contradições; ser independente; os axiomas serem suficientes para a dedução de todos os enunciados pertencentes à teoria a ser axiomatizada; e, finalmente, devem ser necessários, o que significa que não devem incluir pressupostos supérfluos. Nesse sistema teórico é possível distinguir enunciados que pertencem a vários níveis de universalidade. Desta forma, os enunciados de mais alto nível de universalidade são os axiomas; podendo destes, serem deduzidos, enunciados de níveis mais baixos. Enunciados empíricos de nível mais alto recobrem sempre o caráter de hipóteses, relativamente aos enunciados de nível mais baixo, deles deduzíveis: eles podem ser falseados pela falsificação desses enunciados menos universais. Utilizando argumentos estritamente lógicos, Popper reafirma a inutilidade do método indutivo para a pesquisa científica. Através da aplicação do Modus Tollens, mostra que se uma teoria T implica a ocorrência de a, e se tal não ocorre, ou seja: -a; poderíamos deduzir: -T. Esta formulação, extremamente simples, vai constituir-se na pedra angular de sua proposta do critério de refutabilidade como sendo o único sustentável para a avaliação das teorias científicas. Popper propôs a falseabilidade como a solução do problema da indução. Popper viu que apesar de um enunciado existencial singular como, este cisne é branco, não pode ser usado para afirmar um enunciado universal, ele pode ser usado para mostrar que um determinado enunciado universal é falso: a observação existencial singular de um cisne negro serve para mostrar que o enunciado universal, todos os cisnes são brancos, é falso. Pode-se assim concluir, que se a falsidade da conclusão se transmite às premissas, a uma delas pelo menos, a verdade do conseqüente não implica na verdade das premissas.
3. Ciência em confronto com os fatos
Na Lógica da Investigação Científica, Popper defende como científico apenas aquilo que se sujeita a este confronto com os fatos. Ou seja, só é ciência aquela teoria que possa ser refutada. Considera-se que a Ciência, como conhecimento em geral, é uma atividade que se caracteriza principalmente pela ousadia imaginativa das suas hipóteses e que estas se devem sempre formular de modo a exporem-se à experiência, que tanto as pode afastar, falsificando-as, como confirmar, corroborando-as. Assim, quanto mais uma hipótese afirmar sobre o mundo, isto é, quanto maior for o seu conteúdo empírico, mais se arrisca a ser falsificada.
As discussões de Popper levam a defender de forma recorrente que os pesquisadores não devem estar preocupados com a justificação de teorias, mas com o levantamento de contra-teorias que se oponham às primeiras. O que determinará a validade de uma teoria será sua condição de refutabilidade, e só a resistência às suas refutações torna verdadeiro o discurso científico. Desta forma, a confirmação de uma teoria passa da verificação empírica de seus resultados para a sua sobrevivência no embate discursivo na comunidade científica.
Referência Bibliográfica
POPPER, Karl Raimund. A Lógica da Investigação Científica. Tradução de Pablo Rúben Mariconda, Paulo de Almeida. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Os pensadores)
Luziane M. Ribeiro Neff
02/09/2006