Talvez a surpresa seja o que há de mais humano em nós, ou não.
O problema
Uma das tarefas que as ciências modernas se propõem, desde Lord Bacon, é ser um poder. Como decorrência, as ciências parecem capazes de dominar as forças da natureza ("physis") em benefício do próprio homem. Ou, na pior das hipóteses, os cientistas fazem previsões com base em modelos e ferramentas como séries históricas, leis gerais, probabilidades etc.
Mas há quem admita que as ciências do espírito ou ciências humanas e ciências sociais aplicadas não são capazes de fazer previsões. E muitas vezes, quando as fazem, precisam dizer amanhã porque a previsão de hoje não deu certo.
Karl Popper poderia ser invocado para mostrar que o modelo de procedimento da investigação científica, seja na química, seja na física ou na ciência jurídica, é hipotético-dedutivo. Mas a obra de Popper, especialmente "A Lógica da Investigação Científica", só resolve uma parte do problema: a ciência nomotética. Para o racionalismo crítico de Popper não há outro método de investigação que não seja o hipotético-dedutivo.
Admita-se, pelo menos para simplificar, que o problema de Popper – explicar a proposição científica sempre através de um sistema hipotético dedutivo – não tem qualquer importância.
Existem as ciências do espírito que, de algum modo (não importa qual) se distinguem das outras ciências. E, as teorias das ciências da natureza permitem previsões. Hans-Georg Gadamer, entretanto, vai escrever em Verdade e Método que as ciências do espírito não são capazes de fazer previsões e, que isto seria a especificidade dela ou uma característica essencial.
Ótimo, mas Gadamer criou um problema interessante: o senso comum também não é capaz de fazer previsões infalíveis. Portanto, essa incapacidade não pode ser uma característica de todas as ciências do espírito que existiram ou existirão.
Há outra característica propriamente humana capaz de justificar a impossibilidade de previsão das ciências do espírito? Parece que sim, há.
O mais humano em nós
Pode-se dizer muitas coisas sobre o homem enquanto espécie. Mas nós mesmos podemos dizer muito pouco quando o objeto é o autoconhecimento. Somos capazes de surpreender a todos e a qualquer um: analista, vizinho, confessor, amigo, ou seja, lá quem for simplesmente porque sei que vivi, mas não sei quase nada de mim mesmo.
Por exemplo, nenhum filósofo, sociólogo, jornalista ou politicólogo foi capaz de prever a Derrubada do Muro de Berlim. Ninguém mesmo! A queda foi uma surpresa universal.
O que há de mais humano em nós é a infinita capacidade que temos de nos surpreender seja por um gesto de extrema generosidade como morrer para que um outro viva ou seja de extrema e inopinada violência como os Tiros em Columbiene.
É comum que se afirme cinicamente, o ser humano não me surpreende...mas nós mesmos nos surpreendemos a todo instante.
Vamos pensar que eu esperasse tudo (ou não esperasse nada) do homem em estado famélico. Espero que ele contrarie normas sociais e jurídicas, subitamente adentre um pequeno comércio e desapareça esvaziando o caixa ou subtraindo um pacote de biscoitos. E, se, ainda assim fosse possível surpreender? Imagine o homem que expira e inerte cede à força invisível das as normas sociais e jurídicas e desrespeita aquilo que existe de mais humano em nós, a lei da sobrevivência.
Ciência, Metafísica e Cotidiano
Há um lugar para a ciência no mundo, precisamente o mundo como nós conhecemos traz o discurso científico para o cotidiano, a ciência é parte integrante da produção industrial, das atividades econômicas, da nutrição e condicionamento físico, e até mesmo da lavagem de roupa, afinal o anunciante do "melhor" sabão em pó diz que foi cientificamente comprovado "mais branco".
Não obstante à larga influência científica, o mundo da estética surrupia-nos os sentidos e, sem pedir prova, nos impõe padrões de aparência e comportamento que se tornam incontestes até que sejam substituídos por outros, "mais modernos".
A ciência enquanto arsenal conceitual utiliza técnica e cientista como ferramentas para empreender um trabalho em direção à verdade e ao método. O desdobramento cadenciado das afirmações científicas nos garante um lugar seguro (ainda que por breves momentos) e direciona a vida em sociedade fomentando a indústria, a economia e o senso comum... Até o momento em que um outro teste revele um novo conceito, e, determine a partir de então a reformulação da industria, o redirecionamento da economia e contrarie o bom senso, constituindo um novo lugar comum.
No entanto, em oposição a todas as equações científicas, parece haver um lugar para a estética metafísica na ciência. Não, este lugar não está ao lado da técnica, do método ou da verdade. É o subterrâneo presente, ou a janela aberta das mentes que realizam os testes.
O cientista, diferentemente do método e da técnica, não pode ser testado à exaustão, ou melhor, mesmo que testado à exaustão não revela características que lhe são inerentes.
A metafísica é o elemento capaz de induzir o cientista a escolher um autor pela lombada do livro, uma técnica pelo preço do instrumento e um método pela estética. E, se ele escolhesse outro autor, outra técnica ou outro método, o departamento ainda assim autorizaria a pesquisa mas as conclusões poderiam seguir em outra direção. Some-se a isso a cor, o preço e a estética que influenciaram o departamento na autorização do projeto.
Longe de determinar a falibilidade da ciência ou a prevalência da metafísica o que se quer afirmar é puramente estético: ser surpreendente, ou ser surpreendível, é parte do nosso cotidiano caminhar, até mesmo, daqueles que como nós, em alguns momentos, pretendem fazer ciência.
Você discorda? Desenhe uma situação onde não sejamos supreendíveis.
Daniel Rodriguez de Carvalho Pinheiro, Dr, Arq.
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Haradja Leite Torrens, Ms.
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Para citar este texto no padrão ABNT / NBR 6023:2002, copie a referência:
haradja@torrens.com.brTORRENS, Haradja; PINHEIRO, Daniel Rodriguez de Carvalho. A surpresa e as ciências do espírito. IN: Hermenêutica. Disponível em:
http://www.observatorio.pro.br. Acessado em 21 dez 2005.daniel@observatorio.pro.brDaniel Pinheiro; Haradja Torrens
25/12/2005