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OBSERVATÓRIO DA CULTURA: laboratório multidisciplinar de estudos e pesquisa - MEMÓRIA-ESQUECIMENTO E RÁDIO


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MEMÓRIA-ESQUECIMENTO E RÁDIO

Edilmar Norões: o homem da Verdinha

Dedico essa breve reflexão a Edilmar Norões; Grupo de Pesquisa História e Memória da Radiodifusão Cearense; Profa. Dra. Erotilde Honório.
[mensagens para: observatóriodecultura@gmail.com]


Edilmar Norões
Edilmar Norões

A tradição grega narra que no princípio surgiu Gaia (a Terra) e de seus seios divinos nasceu o próprio consorte, Urano (o Céu). Juntos tiveram muitos filhos, dentre eles Mnemósine, cujo nome significa lembrar-se de (ROSÁRIO, 2002, p. 1).

Mnemósine, para os gregos, foi a personificação da Memória e, por simetria lógica, também personificou o Esquecimento. Essa deusa grega que vou chamar simplesmente de Memória-Esquecimento nos protege dos perigos da eternidade, das lembranças, do próprio esquecimento e, por fim, da morte precoce. Perder a memória, mesmo que lentamente, é sinal de morte certa.

Mnemósine é a mãe das musas que inspiram os poetas. A inspiração poética é divina como a profecia. A memória transporta o poeta ao coração dos acontecimentos humanos mais atávicos (FARES, 2008, p. 4.) e fala insuflada pelo Sumo Bem.

A memória-esquecimento se alia à tradição e, de certo modo, instala modelos, padrões, normas grupais. Sem a memória não se pode ver, julgar ou agir. O bom julgamento e a tradição evitam as guerras fratricidas de todos contra todos. Os filósofos chamam essa aliança da memória com a tradição cultural de “mundo vivido” (lebenswelt).

Nesse sentido, a memória-esquecimento é a própria tradição cultural enraizada. Paradoxalmente, a tradição acostada na memória é mãe de nove musas. Cada musa é inspiração criativa, inovadora e a voz de Sophia, a sabedoria que anda por aí.

Sophia, a sabedoria, só pode ser encontrada por aí, porque Mnemósine, a memória individual e grupal se mantém viva pelas mãos das ciências. Ela vive porque é a própria vida, enquanto o puro esquecimento, Lethe, é o nome do rio que atravessa o vale dos mortos.

Com a escrita, parece que o documento é o novo guardião da memória, dos contratos políticos, dos códigos individuais e coletivos, que um historiador francês contemporâneo chamou de história objetiva ou ideológica (Jacques Le Goff, 1992, p. 428). O próprio tempo descarteano, o tempo do relógio (Chronos), assume a forma de documento escrito, deixando pouca coisa para a memória dos velhos.

Também parece que a memória individual guarda bens da comunidade e a memória coletiva é história (FARES, 2008, p. 4.). Mas não é tão simples. A pesquisa historiográfica reinventou o mito de Mnemósine ao embaraçar tempo e ciência, tempo e sabedoria. Explico. A palavra mito não deveria ser tomada apenas como sinônimo de fantasias ou mentiras. Há mitos cuja missão é responder às dúvidas humanas mais existenciais:

1.     Quem somos nós?

2.     Donde viemos?

3.     Para onde vamos?

Perguntas como essas, ou mesmo perguntas mais complicadas têm sido objeto da pesquisa historiográfica. Karen Amstrong (2005), como cientista, tenta responder à pergunta “quem é Deus?”. Erotilde Honório e sua trupe discutem as seguintes questões: donde veio a nossa radiodifusão? O rádio, voz em tempo real do nosso povo, está sendo destronado por outros deuses da mídia?

Karen Amstrog, a historiadora judia, e Erotilde Honório, a pesquisadora mariana, estão convencidas de que há um lugar onde todos os interesses legítimos podem fazer eco: o nome dessa caverna neoplatônica é rádio. E o meu rádio também é telefone para que eu possa ligar para 3261.1233.

Referências:

FARES, Josebel Akel. Memórias, cultura é memória. Disponível em: http://www.intermidias.com/jerusa1/textos/Dossie%20Jerusa_Cultura%20e%20memoria_Josebel%20Akel%20Fares.pdf.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão ... [et

al.] 2.ed. Campinas, SP: ed. Unicamp, 1992.

ROSARIO, Cláudia Cerqueira do. O Lugar mítico da memória. Morpheus: Revista Eletrônica em Ciências Humanas. Ano 1, n. 1, 2002 - ISSN 1676-2924. Disponível em: <http://www.unirio.br/morpheusonline/Numero01-2000/claudiarosario.htm.> Acessado em: 11 set. 2008.


Daniel Rodriguez de Carvalho Pinheiro

18/09/2008

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